12.10.04

Crenças



Acredito que cada um de nós tem um objectivo a cumprir aquando da sua passagem nesta vida.

11.10.04

Mulheres, I

Nunca ninguém lhe dissera o quanto era formosa no acto de lavar a roupa. A mãe agradecia com o jantar. O pai, simplesmente, desconhecia-lhe as virtudes na arte de bem lavar. A avó vangloriava-se do que lhe ensinara. Mas nunca ninguém lhe dissera o quanto era formosa no acto de lavar a roupa.
Talvez fosse do vento que sempre teimava em contornar a esquina onde o tanque fora construído. Talvez fosse das saias rodadas que lhe desciam até ao joelho.
Ou talvez não fosse nada disto, mas dos olhos dele.
Que andavam sedentos de amor molhado e perfumado.
Como a roupa que ela pendurava no arame.
Interrogava-se sobre as razões de nunca niguém lhe ter dito o quanto era formosa no acto de lavar roupa. Não era do sabão azul, concerteza, pois que todas as raparigas novas o usavam. Não seria do cabelo apanhado num rodilho colorido, pois que era moda no vale. Talvez fossem as ancas, que agitava ao ritmo do vai-e-vem da esfrega da roupa. Ou então dos salpicos que, sensualmente, lhe escorriam devagar até aos tornozelos.
Ou talvez não fosse nada disto, mas dos olhos dele.
Ou talvez não fosse nada disto, mas da boca dele.
Que provara a inocência daquele pecado de mulher.
Enquanto ela pendurava a roupa no arame.

8.10.04

Há dias assim

Hoje foi o primeiro dia de chuva oficial no Algarve. Em dias como o de hoje só me apetece dormir até tarde e vegetar no sofá. Dormir durante os programas e ver a publicidade.
Nos dias como este apetece-me fazer um grande jantar para receber os amigos lá em casa. Talvez com uma entrada de tâmaras com presunto no forno, pinceladas com mel. E, quem sabe, uma sobremesa de banana flambeada regada com açúcar amarelo.
Nos dias assim apetece jogar ao monopólio até às 5 da manhã com os amigos do costume, não esquecendo as devidas pausas para torradas e chá, ou então marmelada às colheres com um copo de wiskey.
Em dias assim apetece fazer tudo o que não implique responsabilidade social.
Estar, simplesmente, já sabe bem.

4.10.04

Chapéus

Usava sempre chapéus. Mudava-os todos os dias. Tinha uma estranha mania de que, dessa forma, as ideias permaneceriam sempre no limite desejável. Era o que mais temia: que lhe roubassem as ideias.
Num dia de vendaval, levaram-lhe o chapéu alto que usava às quintas.
"Oh, tragédia! Oh, desgosto!"
Passou a anotar as ideias no papel. Escrevia tudo.
Depois vieram as novas tecnologias e fez um blog. Escrevia mais.
Esqueceu os chapéus. Doou-os ao
Museu do Trajo do Algarve. Escreveu sobre isso.

30.9.04

Descobertas recentes

Fugindo à fórmula original deste espaço, falarei num discurso directo. E por que não?
2004 tem sido um ano cão. Muitos projectos, é verdade, mas ainda poucos frutos. Muitos pretensos amigos, mas ainda poucas certezas. No entanto, e apesar da "má onda" que inundou a minha vida, não consigo deixar de pensar positivo. Mantenho o sorriso, a vontade, a força e a certeza de que um dia melhor virá amanhã. É também verdade que tenho dias maus, muito maus [ouviu, FA? :)] mas, repito, não consigo deixar-me consumir por isso. Ainda bem, certo? Certo!
Hoje dei por mim a pensar nisto e cheguei à conclusão que cresci muito. E não me apetecia nada ter crescido. Mas crescer faz-nos descobrir coisas interessantíssimas acerca de nós mesmos. Descobri que o meu pai sempre teve razão quando dizia "não confies nas pessoas com tanto coração!". Descobri que a minha mãe é a minha melhor amiga. Descobri que é cada vez mais lindo ser tia. Descobri o Amor. Descobri que prefiro o espiritual ao material. Descobri que a minha viola pode ser boa companhia quando não consigo dormir às 3 da manhã. Descobri que há pessoas que não valem nem sequer um cagalhão.
E depois descobri que não quero fazer jornalismo o resto da minha vida. Descobri que quero ter uma vida normal. Descobri que os doutoramentos em Sevilha só custam 300/400 contos.
Descobri que a "Brida" de Paulo Coelho me faz bem como "livro-para ler-excertos-ao-acaso-sem-ligar-à-história". Descobri que Luís Represas e Mafalda Veiga me acalmam cada vez mais. Descobri que o design pode ter nascido dentro de mim. Descobri que Ana Carolina tem uma voz incrível e uma voz linda.
E descobri esta música que, no fundo, era a razão deste post: Encostar na tua".
E aqui ficam duas pequenas frases da mesma:
"Eu quero te roubar pra mim, eu que não sei pedir nada"
"Eu só quero saber em qual rua, minha vida vai encostar na tua"

29.9.04

Trilhos

Haviam caminhado toda a vida lado a lado. Os caminhos que escolheram nem sempre foram os acertados, mas, lado a lado, haviam conseguido chegar aos destinos estabelecidos. Desta vez, o trilho era muito mais estreito que o costume. Não podiam caminhar lado a lado. Ao redor, a vegetação adensava-se e o trilho insinuava-se cada vez mais estreito. Lado a lado, seria impossível percorrê-lo. Voltar para trás, seria loucura. Evitar o trilho, seria a primeira vez.
Em fila indiana - um seguindo o outro - caminharam, mais uma vez, até ao destino estabelecido. E o trilho já não pareceu tão estreito.

27.9.04

Isto é uma declaração de Amor

Depois de muitos amores falhados chegaste à minha vida. Andámos pelos mesmos lugares, quase sempre improváveis, mas só nos encontrámos na altura certa. Assim quis a vida que fosse. Ainda bem. És o bem mais precioso que o mundo me poderia oferecer. Tens sido o meu primeiro amigo, o melhor conselheiro, o amante extraordinário e o companheiro inseparável.
Acordar ao teu lado é uma dádiva, sentir o teu cheiro nas minhas coisas, nos lençois e nos meus sonhos é um sonho concretizado.
Ser mãe dos teus filhos, envelhecer ao teu lado e recordar cada momento da nossa vida é o desejo por realizar.
Amo-te, hoje muito mais que há quatro anos atrás. Porque me fizeste crescer, ser uma mulher melhor, um ser mais completo, mais compreensivo. Ensinaste-me a amar. E a deixar-me ser amada.
Em ti vejo o amor. Na sua forma mais pura e inocente.
Obrigado pelas incessantes alegrias.

24.9.04

23.9.04

Felicidade, nua e crua!




Vivemos para procurar a felicidade e não para vivê-la, dizem os cépticos. Lamento, mas hoje estou muito feliz!!!
Que o mundo saiba que hoje estou muito, muito feliz!!!

22.9.04

Mãos em círculo

À volta da fogueira, de mãos dadas, os nove elementos elevaram-nas em conjunto aos ceús, para agradecer ao Universo a Terra que pisavam.

21.9.04

Mãos

Tocava-as como se as fosse perder a qualquer momento. lavava-as com o cuidado de quem transporta um copo de cristal. Hidratava-as frequentemente, protegia-as das intempéries e passava horas a contemplá-las. Massajava-as uma na outra, e com as duas juntas pelas palmas, rezava aos deuses. Esperava. Sonhava.
Tudo porque lhe haviam garantido que o seu destino estava nas suas mãos. E com o destino não se brinca.

17.9.04

Este Amor que vos guardo

É por todo o Amor que vos guardo que escrevo. Pelo Amor que nunca soube exprimir o suficiente, por ser assim.

No dia em vos tiver nos meus braços, serão sempre poucas as palavras, os gestos e as melodias para pôr cá fora o que, então, sentirei e, hoje, sinto. Não há Amor como este, o que nasce de dentro de nós e nos transforma em seres perfeitos e multiplicados.

É por todo o amor que vos guardo que tento percorrer os caminhos certos. Que sinto que serei capaz de superar o difícil. Que amo a vida com vontade de vos ver vivos em mim, fora de mim e no mundo, com os outros.
É por todo o amor que vos guardo que sou hoje feliz na infelicidade. Porque o amor que vos guardo é maior.

Aguardo-vos e, enquanto isso, guardo-vos todo este amor.

15.9.04

Paladares

Sou uma maluca por paladares diferentes. Gosto de todos. adoro saborear coisas diferentes e sentir-lhes a diferença. Daí que tenha decidido fazer a "catalogação" dos links aqui ao lado por paladares. Que ninguém se sinta mais doce ou mais picante que outros. A escolha foi quase sempre aleatória. Como disse no início, adoro paladares, selam eles quais forem.
São seis, os aceites pela comunidade científica. E passo a explicar:

Doce: é construtor e aumenta a vitalidade de todos os tecidos. Harmoniza a mente e promove o contentamento. É expectorante e laxante suave. Coisas naturalmente doces: trigo, arroz, leite.
Salgado: é suavizante, laxante e sedativo. Em pequena quantidade estimula a digestão. Em média quantidade é purgativo e, em grande quantidade, causa vómito. Descongestiona as massas de muco endurecidas, acalma os nervos e diminui a ansiedade. O sal é, obviamente, salgado.

Ácido: estimulante, nutritivo e reduz a sede. Desperta a mente e os sentidos, promove a circulação e fortalece o coração, nutre os tecidos, com excepção do reprodutivo. Coisas naturalmente ácidas: limão, iogurte.

Picante: estimulante, diaforético (promove o suor). Estimula o metabolismo e promove as funções orgânicas. Promove o calor e a digestão. Estimula a circulação e trata a estagnação do sangue. Abre a mente e os sentidos e limpa os canais energéticos, reduzindo as dores nervosas e a tensão muscular. Coisas naturalmente picantes: pimenta, gengibre, cominho.

Amargo: é alterativo (purifica o sangue), limpando e desintoxicando. Reduz todos os tecidos e aumenta a leveza da mente. É antibiótico e anticéptico e também purifica a mente e as emoções. Em pequena quantidade é estimulante da digestão. Auxilia a digerir os açúcares e gorduras. O espinafre é naturalmente amargo.

Adstringente: Reduz sangramentos e outras eliminações excessivas (como suor e diarreia). Promove a saúde da pele e das membranas mucosas. Enrijece os tecidos e trata prolapsos. O feijão, a lentilha, a banana, o mel e a maçã são adstringentes.

14.9.04

Caixas de Família

Família que se preze tem histórias para contar aos mais novos e aos vindouros. Tem cortinados que contam o que as paredes ouviram. Tem álbuns de fotografias antigas, manchadas pelo tempo e caixas de costura muito velhas. Família que se preze é grande e reúne-se uma vez por semana para abrir a Caixa de Pandora, no caso concreto deste conto, muito parecida com a caixa de costura de família. Ora, saberão os mais afoitos que abrir a Caixa de Pandora significa que uma pequena e bem-intencionada acção pode resultar numa avalanche de coisas negativas.
A família de que vos falo guardava na sua Caixa de Pandora a ferrugem dos dias vividos a cores, as linhas com que cosera os fatos de Carnaval há 40 anos atrás, o dedal sem cabeça que protegera os dedos da bisavó Júlia e, nos últimos tempos, guardava o enorme amor que sempre os unira. Claro, guardava também todas as verdades e mentiras de uns e outros mas, essencialmente, o Amor.
Seria pertinente contar, sem interrupções, as estórias que abotoam esta história de amor, mas dizem que não se deve abrir a Caixa de Pandora. Sabe-se apenas que é um Amor diferente, o desta família. Desconhece-se as linhas com que se cose, mas é garantido que este é um Amor livre, às cores, como os carros de linhas que ilustram as caixas de costura de famílias pouco importantes.
Resumindo e baralhando, já ninguém sabia onde é que havia de ir buscar uma agulha quando a peúga rasgava na frente do pé. Se à Caixa de Costura, se à Caixa de Pandora.
Um dia enganaram-se e da Caixa de Pandora não saiu a linha vermelha. Saiu o Amor e, como consequência, voou para longe a história da família de que vos falo. Mas também ninguém se preocupou. Ou importou. Afinal, histórias dentro de caixas perdem vida. Sejam de Pandora ou de costura.

[ler devagarinho, sem pressa de ser feliz]

10.9.04

Dicionário













As palavras mais belas são as que nascem
do teu corpo: cabelos, lábios, ombros, seios,
até o ventre, e o que entre as coxas se esconde.

Escrevo-as devagar, como se lhes tocasse; e
cada uma delas é como um espelho, de onde
se libertam as tuas mãos, os dedos, um joelho,
olhos que beijo num murmúrio de segredos.
E pedes-me significados, símbolos, primeiros
e segundos sentidos. Não te sei dizer senão que
corpo é o teu corpo, centro um secreto umbigo,
pele a mais branca neve no horizonte desta
subida leve. Se me estendes os braços, entro
num abrigo de floresta; se me abres os ramos,
é na mais doce gruta que entramos.
Precipitam-se sinónimos, adjectivos sem
objectivo, pronomes enfáticos e possessivos,
sílabas perdidas na falésia do desejo. Mas
fecho o livro. Estou farto de palavras, é a ti
que eu quero. E faço-as voltar até de onde
nasceram: cabelos, lábios, ombros, seios, até
o ventre, e o que entre as coxas se esconde.


Nuno Júdice in “O Estado dos Campos”

8.9.04

Lugares

Disseste-me para nunca voltar aos lugares onde já havia sido feliz. Desobedeci-te. Fora feliz, voltaria a sê-lo. Vesti os calções e a blusa de cavas que vestira nos dias felizes. Enfiei na mochila as coisas do costume que, por costume, me faziam feliz. Dinheiro no bolso, óculos na cara, vontade de ser feliz no peito.
Rumei sem rumo, certa de que o lugar certo me acolheria de novo. Notei que as árvores do caminho de sempre continuavam a tocar-se, formando uma espécie de túnel de vitrais que deixam passar a luz reproduzindo os seus desenhos no chão. Desta vez o caminho pareceu-me mais longo. Percorria-o sozinha.
Pernoitei no lugar onde fomos felizes a primeira vez. Na tua ausência e distância, senti-te dentro de mim. Fui feliz. E voltei a ser. E serei sempre, sempre que souber que a felicidade está em mim contigo, e não nos lugares. Sou feliz cá dentro, onde te guardo juntamente com as memórias dos lugares. É esse o lugar onde sou feliz. E ao qual voltarei sempre. Enquanto nos amarmos.

6.9.04

Meio cheio

Há dias assim. Em que o copo parece meio vazio. E o mundo meio vivo. E a vida meio vivida. E as oportunidades meio aproveitadas.
Mas olho para trás e vejo que sempre tive o copo meio cheio. E três quartos de vida bem vivida. Oportunidades? A partir de agora vou aproveitá-las mais.

3.9.04

É este cocktail de emoções que me incomoda e estonteia. Que o mundo expluda e o Homem se arrependa. De preferência, tarde demais.

2.9.04

O impossível acontece

Tenho sempre paredes nos sonhos. Abrigam-me das intempéris, dos ruídos estridentes que tanto me incomodam. Recolhem-me nos seus tons pastel, manchadas pela goteira do andar de cima, pelo fumo dos cigarros fumados e pelas memórias nem sempre agradáveis. É nas janelas que prendo o olhar e o pensamento. E não dói pensar assim. Pior é quando nem elas se abrem para poder respirar. Mas nos sonhos tudo é possível. São os sonhos que me infinitam os limites. E é nos sonhos que me sinto. Me vejo e revejo, vezes sem conta. Os cheiros, os sabores e as cores perfeitas, só nos sonhos não são impossíveis de ter. Sou uma e una nos meus sonhos. E guardo-os nas paredes do meu quarto, enquanto sonho de ohos abertos. Para que as janelas nunca se fechem ao meu olhar. E, às vezes, o que parece impossível, acontece. E tenho as cores, as formas, os paladares, os sabores e os pensamentos mais perfeitos. E sou, mais que una e uma, um todo num só. Plena, viva, cheia, completa, inteira, repleta e invadida de sonhos impossíveis que às vezes acontecem.

Às vezes sim, às vezes não


Bem-me-sinto, mal-me-sinto
Bem-me-sinto, mal-me-sinto
Bem-me-sinto, mal-me-sinto
Bem-me-sinto, mal-me-sinto