20.12.04

Sonoridades II

Estou farta de chorar. De alegria. Estranho... Ouço-me por dentro e é isto que acontece.

Sonoridades I

Tentei mas não consegui. Como se escreve o som de uma gota com sabor a sal a rebolar na face e a cair no teclado do computador?

Transparência

Decidira, há alguns anos, tornar-se transparente aos olhos dos outros. De início foi engraçado escutar conversas sem ser notado, presenciar momentos sem deixar marcas. Sentava-se nas esplandas dos cafés a ver passar a vida e ela nem dava por ele. E, assim, foi conseguindo manter-se alheado das coisas que não lhe interessavam.
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Pior foi quando precisou que o notassem. Havia aquela rapariga, ligeira e segura, que passava por ele sem sequer o sentir. Havia o senhor do café onde se sentava e que, agora, já não o via. Havia o condutor do autocarro, que agora já não parava para o fazer subir. Havia o vizinho do 4º esquerdo que fechava a porta do elevador sem lhe perguntar se subia. Começava a incomodá-lo, esta coisa de ser transparente.
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É que, de tanto querer não ser notado, acabou por desaparecer, na forma física que lhe era natural. Anulara-se. Eliminara-se. Rescindira involutariamente daquilo que era fisicamente. Mas no peito, que agora não existia, permaneciam os sentimentos. Os homens transparentes também têm coração!!!
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Vivia triste e amargurado com a sua transparência efectiva. Mas fora ele que escolhera não ser notado. Agora, conforme a solidão exterior se ía condensando, por dentro, no corpo que não existia, nasciam nuvens escuras, cumulonimbos. E quem por ele passava agora, abria o guarda-chuva, com medo da tempestade. Fazia-se notar, agora, através da densidade da nuvem gigante, cinzenta, quase negra.
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Fazia-se sentir. Pelas tempestades que transportava dentro de si.
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17.12.04

Cantos Corais

Todos sentados, à espera. No palco, o púlpito do maestro, as pautas alinhadas. Nos bastidores, duas dezenas de vestidos azuis passeaim-se com ligeireza. Eu, em estado de ebolição.
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10 minutos. 10 minutos bastaram para que o meu nervoso miudinho fosse substituído pela admiração. Foram duas horas de cantos magníficos, arrepiantes, altamente revigorantes.
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O cenário: perfeito. A acústica: perfeita. O ambiente: perfeito. A noite: perfeita.
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Gostava de poder viver eternamente aquele sentimento de elevação, quase nirvana.
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Elementos Celestiais

Ser celestial. Que me completas na mais profunda perfeição. Que me orientas na noite escura, iluminando o meu pensamento. Que me elevas aos céus, esses que são teus, cobertos de estrelas brilhantes e azuis inalcansáveis. Nasceste para me protegeres. És tu o meu anjo-da-guarda.
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Elementos Celestiais, by Susana Paixão, 2004

15.12.04

Mia Couto

Para ti, Sunny.
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Não é difícil gostar de ti, "Terra Sonâmbula"*. A tua desarrumação aparente encanta-me, ainda que o cenário seja tão sofrido. É difícil passar por ti desta forma quente, desprendida, irónica e hilariante sabendo que foste, antes de sonâmbula, bem viva nas histórias contadas por quem te viveu. Ninguém como tu sabe da história da guerra vivida pelos homens sós numa paisagem enebriante e destruída.
Passando por ti à distância obrigatória da leitura, ouço-te os sons que tão bem me trouxeste com letras.
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* romance de
Mia Couto

Disfarce


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é brincando que me encontro na felicidade construída pelos outros. a minha?... deixei-a dentro de uma arca antiga, sem código ou chave mas ainda assim impenetrável. deixei-a no coração de uma mulher.

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Sofrida. Queimada. Findada.
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os sorrisos abertos que agora não sinto, multiplico-os nos rostos das crianças dos outros. chega-me uma máscara.

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Sentida. Pintada. Fingida.

Depus a máscara, by Mário Sousa, in 1000imagens.


13.12.04

[Esclarecimentos]

Para que não hajam confusões acerca da autoria das fotos publicadas neste blog esclareça-se o seguinte:
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- Nunca foi, nem será, minha intenção, recolher, injustamente, os louros dos autores das fotografias;
- Em momento algum referi como minhas as fotos publicadas;
- Tento sempre publicá-las com link para a página referente aos autores das mesmas, embora nem sempre funcione;
- Não sei tirar fotografias bonitas;
- De hoje em diante serão escritas as referências das fotografias desde que identificadas nas fontes onde são recolhidas;
- De hoje em diante vou simplesmente apagar comentários cuja origem não seja dada a conhecer, nomeadamente através de um e-mail ou de uma homepage que exista.
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E acrescento: o objectivo foi sempre o de adornar as palavras, promovendo o bom gosto pela imagem. Já agora, para os dois ou três indivíduos do mundo que ainda não conhecem o 1000 imagens, aqui fica o link para este site fantástico de fotografia pretensamente amadora, do qual se podem copiar imagens sem qualquer restrição tecnológica.
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Aproveito também para pedir desculpa aos autores das fotos publicadas que se sintam, de alguma forma, lesados. Se assim fôr, por favor contactem-me. Serei solícita em retirá-las daqui.

12.12.04

Sem título

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Para onde vais? Levas-me contigo?
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Escrever

Houve dias em que soube porque é que escrevia. Agora é só mesmo um impulso que me faz bem, qual descongestionante nasal. É uma espécie de higiene quase diária. Sabe-me bem escrever, só por escrever. Sem metas, objectivos, motivos... Escrever só por escrever. Assim como quem dorme a sesta depois de almoço. Como quem apanha papoilas vermelhas só para as ver de perto. Como quem abre um livro para lhe sentir o cheiro.
Escrever só por escrever. Nem sei porque escrevo.

Decisões

Desta vez era a sério. Ía mesmo mudar. E não exteriormente, que isso é coisa que fazem aqueles que não têm coragem para mudar por dentro. Daquele dia em diante, prometera a si mesma, iria ser mais tolerante, menos exigente e serena. Debruçar-se-ia sobre temas que sempre lhe interessaram, ponderaria as respostas a determinadas perguntas., tomaria as decisões com calma, sem emotividade.
Agora, que sabia que caminho escolher, seria mais fácil, também, afastar de si as coisas que, definitivamente, não queria ter por perto. Estava determinada. Daquele dia em diante, seria mais ela.
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E foi.

10.12.04

?

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Quem sou eu que, nos sonhos tardios, se inclina sobre ti, criatura? E quem és tu que, nos sonhos vespertinos, me levas a lugares virgens? Quem somos nós que, nesta dança descoordenada, nos queremos e apartamos sem rodeios?

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Fingidos? Fumo? Fantasia?
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Mentiras Correntes

Vou ali, já venho, agora não tenho tempo.
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Não vi a tua mensagem.
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Hoje não posso, já tenho coisas combinadas.
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Serei sempre tua amiga.
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8.12.04

O Nascimento




Nem sequer sou religiosa, mas emociona-me sempre o facto de se comemorar o nascimento de alguém. Gosto de aniversários. E a este, ao que parece, ninguém falta! Votos antecipados de um Feliz Natal para todos!

7.12.04

Caminhos



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Não sei se me hei-de deixar levar nos teus caminhos, se me deixe ficar onde estou. Só quero que olhes sempre por mim. Desta vez prefiro deixar-me ser conduzido.
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6.12.04

Preisner, sons e emoção


A simbiose que desconhecia e que fiquei a amar, ao conhecer pessoalmente o senhor Preisner. Zbigniew Preisner. Primeiro ouvi-lo falar com a mais verdadeira modéstia sobre a sua obra vastíssima na composição de bandas sonoras. Depois ao vê-lo corar quando o público o aplaudio de pé. Depois ainda vê-lo fugir das pessoas que o elogiaram. Depois cá fora, quando trocámos palavras breves. Quando o levámos ao hotel, por ficar de caminho. Depois quando nos cruzámos novamente no final da noite. Ele e nós, já com os copos. Foi uma sensação de empatia à primeira. Uma sensação de veneração por sabê-lo tão grandioso na arte de fazer música. Sublime, quase. A trilogia Azul, Vermelho e Branco, a Dupla Vida de Verónique, Secret Garden e outros filmes que apenas conhecia de nome, passaram a fazer parte daquelas coisas que vou levar comigo até à velhice.
Preisner apaixonou-me. Mostrou-me o quão importantes podem ser as bandas sonoras em determinados filmes. Em como há imagens que só acompanhadas de melodias simples, intensas e profundas fazem sentido.
Fiquei fã, no passado dia 3, nos VIII Encontros de Cinema, no lindíssimo Teatro Lethes, em Faro.

5.12.04

Domingos

Está um lindo dia no Algarve. Para comer bolachas maria barradas com marmelada caseira, enquanto se fala do futuro promissor que nos aguarda. Lá fora até pode chover, mas por aqui o sol vai brilhar até nós querermos. É que está um dia lindo de quase Inverno.

4.12.04

De olhos fechados, outra vez

Não sei se todos terão reparado, mas os mais atentos concerteza que sim. O post intitulado "De olhos fechados" e respectivos comentários foram dar uma curva... não sei bem porquê, até porque num momento estava lá, no seguinte nem por isso! Como sou teimosa como uma porta fechada, aqui vai novamente o texto e a foto. Não na sua forma original, porque não se escreve duas coisas iguais. Mas a essência deverá estar lá.
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Há coisas que têm sabores diferentes dependendo da forma como as provamos. De olhos abertos e de olhos fechados. Andar numa montanha russa. Sexo. Chorar. Sonhar. Beber água de um chafariz.
De olhos fechados escondemos o medo de sermos descoberto. De olhos abertos perdemos a inocência dos gestos.
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Era mais ou menos isto, não era? A quem teve a amabilidade de fazer desaparecer o post do seu devido lugar o meu muito Obrigado! Podia ter apagado todos, mas não o fez! Agora é tarde demais! A password foi alterada!
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Seguem-se os respectivos comentários, então escritos neste post:
Asul: não serão os olhos abertos a manifestação de inocência?
Jorel: Como é que se consegue chorar de olhos fechados?
Ismael: Ah, então é por isso que não se deve confiar em quem beija de olhos abertos.
Inês: lindo post. bravo!
José Farinha: por acaso eu acho, como diz o asulado acima, que os olhos abertos são a expressão da própria inocência, que nos dá força para assumir e viver o risco da experiência total, que também é visual... mas eu sou homem, deve ser por isso.
Charneca no Inverno: concordo contigo. Bonito.
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E pronto! Assunto resolvido!

2.12.04

Luzes

Hoje senti nascer cá dentro de mim uma luz. Pequenina, mas que me inspira muita confiança. Confio nela. Vai dar-me maiores alegrias. Vou levá-la comigo para onde quer que vá. Porque são assim, as luzes que nascem dentro do peito.

30.11.04

Joaninhas e outras lembranças

Hoje uma joaninha esteve tranquilamente pousada na minha mão esquerda. Uma eternidade, do ponto de vista joanês. 15 minutos, para ser mais precisa. Foi delicioso. Há ano que não via uma tão perto. Soube tão bem como apanhar bolotas de azinheiras, roubar ao zambujo uma rama e ouvir estórias de encanto e desencanto à beira da lareira. Soube tão bem quanto isto. Senti-me crescida, mas infinitamente grata por poder usufruir de momentos tão raros como estes.