17.11.06

Sonho, Verdade, Evasão, Contensão

Bulia tanto como os outros. Não se achava melhor nem pior. Mas tinha um sonho. Vão, vago, vazio e incolor. Mas era em sonho, e isso enaltecia-lhe o ego! Sabia que era um sonho. Mas não sabia dizê-lo. Nem escrevê-lo. Era moço ainda, quando, num acidente de percurso, perdera a capacidade de comunicar com o mundo exterior. Era comum tentar compreender aqueles que o rodeavam, mas... ??? Sempre tão... estranhos! Se ao princípio ainda tentava esforçar-se por manter a atenção centrada nas palavras que não entendia vindas da boca de toda a gente, hoje, desistira. A verdade é que se perdia nos sonhos dos outros, nas suas manias de gente grande, de malta com pretenso futuro. Que sim, que faziam, que tal... mas nada disso lhe parecia real. Desconhecia se a contensão sentimental era propositada ou uma deficiência das pessoas ditas normais. Pensava então que o problema fosse seu. Talvez fosse o autismo, ou o atraso no desenvolvimento cognitivo, ou o acidente de percurso... ninguém sabia, mas a ele não lhe interessava nada disso. Sabia que no seu pequeno grande mundo de evasões constantes, jamais lhe poderiam roubar o sonho! O sonho de ser feliz, apenas o sonho de ser feliz.
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Palavras sugeridas por mfc

15.11.06

Beijos, Cigarro, Sabores, Chuva

Anoitecia devagar, como nos dias de Verão. O silêncio escondera-se connosco dentro de casa, ausentando-se do exterior cada vez mais ruidoso. Nos beijos que trocávamos havia o sol de Novembro que trocara a rua fria e chuvosa pelo calor dos nossos corpos. E numa sala que podia ser de Inverno, cheirava a mar quente de Verão, com os sabores da Primavera a explodirem num turbilhão de emoções.
O mundo acontecia cá dentro e nem os cigarros a arderem no cinzeiro faziam crer que o futuro seria enublado.
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Palavras sugeridas por Bubbles

7.11.06

gosto da vida assim como ela é. nem mais, nem menos. a minha não precisa de maiúsculas para ser vida viva. é vida, e pronto! e às vezes aposto que canso com esta lenga-lenga, porque até a mim me parece estranho fazer esta constante alusão à vida. chego a pensar que talvez seja um tipo de fuga ao inevitável: a morte. mas depois penso que viver é precisamente aceitar a morte. fazer dela apenas mais um pormenor da vida. porque é mesmo disto que somos feitos: vida e morte. e como sei que a morte é certa, acho lógico que tentemos viver sempre e sempre mais. porque eu gosto mesmo da vida, assim como ela é. sem metáforas, sem eufemismos mas com muitas hipérboles. Viver exageradamente conforta-me e dá-me a certeza de que fui feita para viver intensamente! e Amar a vida com maiúsculas!
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para a minha lis

6.11.06

Tudo, Aborto, Silêncio, Campainha

Há coisas muito relativas na vida. Impossíveis de afirmar tacitamente que são assim porque são. A pena de morte, o aborto ou a eutanásia. Relativo. Muito relativo. Tal e qual como quando encomendamos chinês e levamos para casa à espera que seja uma noite exótica. Depois da garrafa bebida torna-se difícil manter as aparências do exotismo de países que nunca visitámos. Dizemos sempre, um ao outro, que foi uma noite especial, regada com bom vinho a acompanhar os bambus, as algas e as carnes desconhecidas. Sabemos, no entanto, que é apenas mais uma forma de estarmos juntos, quebrarmos o silêncio do corpo e deixarmo-nos estar. Apenas por nós. Tudo, por nós. E quando a campainha do micro-ondas dá sinal, sabemos que o chocolate quente está pronto a regar o gelado de morango comprado num qualquer estabelecimento barato. E como na vida há coisas muito relativas na vida, às vezes sabe bem. Outras nem por isso.
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palavras sugeridas por Amaral

2.11.06

Raridade, abundância, montículo e sossego

Observava com relutância o passar do tempo. Passava horas a virar a ampulheta. Apreciava ver cair o fio de areia fina e branca, num movimento contínuo, criando, vagarosamente, um pequeno montículo na parte inferior. No entanto, fazia-lhe espécie que os minutos, as horas, os dias, as semanas e os meses a passarem provocassem tamanha revolta na cabeça dos mais crescidos. É certo: ouvira dizer que, nos dias que correm, ter tempo é uma raridade, mas... valeria a pena gastá-lo lamentando-se?
E ficava assim, relutante, a perceber como é que pequenos grãos de areia poderiam roubar o sossego de viver. Até porque, ao cair dos últimos grãos de areia, a abundância de tempo na parte inferior da ampulheta era evidente! Sim, é verdade que no topo da ampulheta existia agora o vazio, mas bastava inverter o processo, e voltava a sobrar todo o tempo do mundo!
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palavras sugeridas por João Viegas dos Santos